Contexto
por que fizemos isso.
Existe muita afirmação sobre visibilidade em IA e quase nenhum dado público brasileiro.
As frases que circulam — “76% das citações vêm da primeira página”, “otimize para IA como você otimiza para o Google”, “backlinks são tudo” — não vêm acompanhadas de medição, amostra ou método.
Nós tínhamos quatro clientes em nichos jurídicos distintos, acesso às APIs dos principais motores e orçamento para rodar uma medição séria. Rodamos.
A pergunta não era “o nosso trabalho funciona”. Era o que dá para saber com medição honesta.
Método
como medimos.
O que perguntamos. 72 perguntas, em quatro famílias:
- Contratação. Como uma pessoa procura um profissional. Formato: “Melhor advogado de [área] em [cidade]”.
- Nome próprio. Quando já se sabe o nome e se quer confirmar quem é.
- Tema. Perguntas informativas, sem intenção de contratar. Formato: “[procedimento]: como funciona em 2026”. Servem de controle.
- Genérica. Sem alvo: “como escolher um bom advogado”.
Nota de método
As perguntas reais não são reproduzidas aqui. Elas nomeiam cidade, nicho e recorte de atuação com precisão suficiente para identificar os escritórios acompanhados, e a condição para publicar estes números foi o anonimato deles.
Onde medimos. Cinco superfícies: ChatGPT, Gemini, Perplexity, Google AI Mode e a busca orgânica do Google. Três repetições por célula nos modelos de linguagem, duas no AI Mode.
Como contamos. Cada resposta foi pontuada para os quatro escritórios em toda resposta, não só para o alvo da pergunta:
- Site citado — o domínio aparece na lista de fontes. Sinal forte: o conteúdo dele alimentou a resposta.
- Nominal — o nome aparece no texto, sem o site como fonte. Sinal fraco: a IA sabe quem ele é, mas não está lendo o site.
- Ausente.
Essa distinção é o centro do estudo: um escritório pode ter uma coisa sem a outra, e a ação para corrigir cada caso é oposta.
Grupo controle. As perguntas de contratação não citam nome de ninguém. Como registramos todo domínio citado em toda resposta, a taxa de qualquer concorrente nas mesmas células é diretamente comparável — 884 domínios em pareamento perfeito, sem viés de seleção.
Achado 1 · escopo
o escopo é o fator dominante.
É o achado mais forte, e o que mais contraria a intuição.
Medimos um mesmo escritório em perguntas de alcance crescente, dentro do próprio mercado declarado dele:
24 células por faixa. Nacional: nenhuma aparição.
O padrão se repete nos outros escritórios, com a inclinação variando conforme o nicho. Um deles sustenta 25% no âmbito nacional — mas o mesmo despenhadeiro aparece: 75% local contra 25% nacional.
Quem vende “apareça no ChatGPT” sem qualificar o escopo está vendendo duas coisas com preços muito diferentes pelo mesmo valor.
Achado 2 · autoridade
no nacional, o que separa é tempo — não backlinks.
Quando olhamos quem ocupa o espaço nas perguntas nacionais, esperávamos encontrar autoridade off-page. Encontramos idade.
| Grupo | Idade média |
|---|---|
| Quem vence no nacional | 8,9 anos |
| Concorrentes locais | 6,3 anos |
| Escritórios acompanhados | 1,3 ano |
Os backlinks, ao contrário, não formam padrão nenhum. Entre os seis domínios que dominam o espaço nacional nos nichos medidos, os totais vão de 21 a 107.030. Três deles têm menos de 600.
Há domínios vencendo o nacional com perfil de links modesto e quase uma década de estrada — e nenhum vencendo com muitos links e pouca idade.
Se o teto fosse backlink, seria comprável. Sendo tempo, não é.
Achado 3 · camada local
a camada local não cobra esse pedágio.
Aqui está a parte útil.
Os mesmos escritórios que dão 0% no nacional sustentam presença consistente no seu mercado local:
| Escritório | Presença local | Domínios de referência |
|---|---|---|
| A | 79% | 0 |
| B | 75% | 1 |
| C | 67% | 0 |
| D | 48% | 15 |
Dois deles têm literalmente zero domínios apontando para o site e são citados normalmente em seu mercado. E o que tem mais domínios de referência dos quatro é justamente o de menor presença local.
O mesmo se vê do outro lado do balcão, e de forma ainda mais nítida. Nas células locais de um dos mercados medidos, o domínio mais citado de todos tem meio ano de vida e zero backlinks, com 88% de presença.
Na camada local, a IA se apoia em sinais que um escritório pequeno consegue construir — não na autoridade acumulada que leva uma década.
Essa é a boa notícia deste estudo, e ela vale tanto para quem nos contrata quanto para quem não nos contrata.
Achado 4 · motores
os motores não são intercambiáveis.
Medimos a composição das fontes de cada motor. Eles se comportam como produtos diferentes, não como sabores do mesmo produto.
Escala de 0 a 13,6 domínios. Média por resposta, rodada 1.
| Motor | Institucional | Escritórios |
|---|---|---|
| Busca orgânica | 12% | 56% |
| Perplexity | 18% | 61% |
| Google AI Mode | 15% | 46% |
| Gemini | 16% | 51% |
| ChatGPT | 44% | 39% |
O ChatGPT cita mais de cinco vezes menos fontes que o Perplexity e prefere o institucional: em 44% dos casos responde com portais oficiais e leis, não com escritórios.
E isso importa por um motivo desconfortável: o ChatGPT é o motor dominante, com 79,4% do mercado mundial de chatbots de IA (StatCounter, agosto de 2026). O motor que mais gente usa é o que menos espaço dá para um escritório aparecer.
Achado 5 · pergunta aberta
o caso do Perplexity: quase zero, sem causa identificada.
O Perplexity citou os quatro escritórios 2 vezes em 2.642 citações — as duas numa pergunta que já trazia o nome do escritório. Nas perguntas sem o nome, zero. Testamos as explicações óbvias, e todas caíram:
- Não é autoridade. Um concorrente com zero backlinks é citado 12 vezes pelo mesmo motor.
- Não é qualidade. Ele cita domínio com spam score 2.510.
- Não é bloqueio técnico. Nenhum dos sites bloqueia robô de IA no
robots.txt.
O que sabemos é que ele prefere agregadores e plataformas de terceiros a sites de escritório. Não temos a causa — registramos como pergunta aberta, porque é mais útil que uma hipótese inventada.
Achado 6 · busca × IA
primeira página não é resposta da IA.
Dos 5.270 pares registrados, apenas 42% das citações de IA vinham da primeira página do Google.
| Motor | Citações | Na 1ª página |
|---|---|---|
| Google AI Mode | 939 | 55% |
| Gemini | 1.208 | 46% |
| ChatGPT | 481 | 44% |
| Perplexity | 2.642 | 35% |
| Total | 5.270 | 42% |
O caso mais didático apareceu na validação manual: um dos escritórios ocupa hoje a primeira página do Google para o termo do seu nicho — e não é citado nenhuma vez pelo AI Mode do próprio Google. Indexado, rankeado, posicionado. E ausente da resposta.
São dois jogos. Dá para ganhar um e perder o outro no mesmo termo, no mesmo dia.
Achado 7 · conteúdo
a camada de conteúdo não está gerando visibilidade temática.
O achado mais incômodo, e o que nos custa mais publicar.
Nas perguntas sobre o tema, a presença despenca. Mesmo no recorte mais favorável — só as perguntas que espelham conteúdo que eles de fato publicaram — a taxa é de 11% (20 de 180 células). Nas perguntas temáticas sem conteúdo publicado, 0 de 48.
Na validação, olhamos quem ocupa esse espaço. Em três perguntas temáticas, o padrão foi idêntico: o ChatGPT responde com portais oficiais; o Google AI Mode responde com outros escritórios de advocacia e agregadores jurídicos.
A leitura honesta é dura: no AI Mode, não é que a IA rejeite conteúdo de escritório no tema. É que ela achou conteúdo melhor.
| Páginas no sitemap | Presença temática |
|---|---|
| 40 | 21% |
| 33 | 12% |
| 22 | 0% |
| 8 | 0% |
Quatro escritórios, ordem perfeita. Com n=4 é sugestivo, não conclusivo — mas é o sinal mais direto de que volume de conteúdo relevante é o que abre essa porta.
Achado 8 · Google
o Google tem três respostas para a mesma pergunta.
Na validação encontramos, por acaso, algo que reorganiza o vocabulário todo. Para a mesma pergunta, no mesmo minuto, na mesma sessão anônima:
| Superfície | Posição |
|---|---|
| Busca orgânica | 2º |
| AI Overview (bloco de IA na busca) | 1º |
| AI Mode (aba própria) | 3º |
O AI Mode refaz a consulta — não herda o ranking da busca nem do AI Overview. E o AI Overview não existia nessa pergunta um mês antes.
“A posição no Google” deixou de ser uma coisa. São três — e um escritório pode ser 1º e 3º ao mesmo tempo.
Rigor · validação
como validamos o instrumento.
Toda a medição saiu de API. A pergunta certa é: o que a API mede é o que uma pessoa real vê?
Em 12 de setembro fomos verificar. Selecionamos 14 perguntas — âncoras de presença alta, de ausência, casos instáveis e controles — e refizemos cada uma à mão, em janela anônima e sem login, no ChatGPT e no Google AI Mode. 28 capturas, 64 registros de tela, todos preservados.
Para a comparação ser justa, recoletamos o lado automatizado no mesmo dia: cinco das catorze perguntas tinham mudado em 37 dias, e comparar contra os números antigos teria confundido deriva do tempo com falha de instrumento.
| Superfície | Concordância |
|---|---|
| Google AI Mode | 14/14 · 100% |
| ChatGPT | 12/14 · 85,7% |
Nas âncoras de presença forte, 4 de 4 nas duas superfícies; nas de ausência esperada, 3 de 4.
As três divergências apontam todas para o mesmo lado.
Duas foram de presença (a API não viu o escritório, o produto viu) e uma de tipo (a API viu só o nome, o produto citou o site), que não desconta do 12/14, porque nas duas leituras o escritório aparecia. Todas no ChatGPT, e todas na mesma direção: o produto mostrou mais do que a API mediu. Em nenhum caso mostrou menos. Isso conversa com a densidade de fontes — quem cita 2,2 por resposta tem pouco espaço, e pequenas variações mudam quem entra.
A conclusão não é “medir IA por API não funciona”. É mais estreita e mais útil: o endpoint de modelo de linguagem subestima; o de busca com país, não. Nossos números de presença no ChatGPT devem ser lidos como piso.
Rigor · limitações
o que não conseguimos provar.
Esta seção existe porque uma pesquisa sem ela não é pesquisa.
Este estudo mede o terreno, não prova um método.
É uma pesquisa observacional: não há grupo de controle com intervenção sorteada, e sem isso nenhum dado aqui — nem a favor, nem contra — estabelece causa.
Temos um antes-e-depois real, de um caso só. Um escritório que manteve o mesmo domínio e a mesma marca, e trocou o site e o conteúdo, saiu de sete meses em zero para 33 menções em IA em seis meses. O que mudou foi o conteúdo. É o melhor sinal do estudo, e é n=1.
Nos outros três, o teste contrafactual não produziu contraste: eles ficam em zero nas duas condições, e comparar dois zeros não informa nada.
E não afirmamos exclusividade. Como mostra a camada local, entrantes sem histórico alcançam presença alta. A porta está aberta, inclusive para quem faz sozinho — eficácia e exclusividade não são a mesma coisa.
A idade dos domínios contamina as comparações.
Os escritórios acompanhados têm em média 1,3 ano de domínio; os concorrentes, de 6 a 9. Nenhum recorte nosso elimina essa confusão.
A validação mede uma repetição; a API mede duas ou três.
A mesma pergunta, com oito minutos de diferença, devolveu respostas de gêneros diferentes: primeiro três escritórios com site citado, depois três juristas acadêmicos. Em outra, três execuções seguidas puseram o mesmo escritório em 3º, 1º e 2º. Presença é métrica estável. Posição não é — e quem mede com uma consulta manual está medindo ruído.
Dois confundidores que não separamos.
Modelo: a API mediu uma versão; o produto deslogado serviu outra, mais nova. Geografia: o endpoint de modelo de linguagem responde a um usuário sem lugar, e o produto real usa a geografia da pergunta ou o endereço de rede de quem pergunta — o que provavelmente torna o efeito de escopo um piso também.
O estudo mede sites.
A detecção registra citação de domínio de escritório. Outras superfícies de conteúdo ficaram fora do escopo desta rodada.
A validação por nome não é 100%.
Perguntas com o nome próprio pareciam dar presença total, mas o registro contava até respostas do tipo “não há informações sobre a Dra. X”. Contando só citação de site, o número honesto é 65%.
Aplicação
o que fazer com isso.
- Defina o escopo antes de qualquer coisa. Local e nacional em IA são mercados diferentes, com custos de entrada diferentes.
- Na camada local, conteúdo específico vale mais que autoridade. Escritórios com zero backlinks aparecem em 67% a 79% das perguntas locais — e um entrante de meio ano chegou a 88%.
- Não confunda estar no Google com estar na resposta. Só 42% das citações vêm da primeira página.
- Escolha o motor conscientemente. O ChatGPT domina o uso e é o que menos cita escritórios; o Perplexity, nos nossos dados, citou os quatro só 2 vezes em 2.642 citações, e só quando a pergunta trazia o nome.
- Meça com repetição ou não meça. O produto oscila o suficiente para inverter uma conclusão entre duas consultas separadas por minutos.
Ficha técnica
ficha técnica.
- Rodada 1
- 06/08/2026 · 864 células · 0 erro
- Validação manual
- 12/09/2026 · 14 perguntas · 28 capturas · 64 registros
- Recoleta de controle
- 12/09/2026 · 70 células · 0 erro
- Perguntas
- 72, em 4 famílias
- Motores
- ChatGPT · Gemini · Perplexity · Google AI Mode · busca orgânica
- Repetições
- 3 por célula de modelo · 2 no AI Mode
- Escritórios
- 4, em nichos jurídicos distintos
- Domínios concorrentes
- 884
- Pares analisados
- 5.270
Autoria
Cléviston Pierobom, Consultor de SEO para IAs e fundador da Pier Digital.